
Como eram simétricos os círculos da cebola cortada, pareciam ter vida própria, girando… girando, enquanto Fábio sentia-se atraído por aquele movimento que mais parecia querer engoli-lo. O pó de café queimando no pratinho de sobremesa, seu cheiro acre e úmido sobrepondo-se ao da fumaça do cigarro de maconha que havia terminado de fumar.
Foi até a cozinha em busca do que comer, todos haviam saído portanto estava livre. Foi atraído pela meia cebola roxa cortada sobre a mesa, talvez tenha sido esquecida pela empregada.
Nunca havia percebido a plasticidade daqueles círculos perfeitos, total fascínio, olhava fixamente para eles, a colocou contra a luz e a sua umidade pareceu que a qualquer instante faria brotar água dos intervalos entre um círculo e outro.
Cansou, o braço semi-adormecido o fez desistir, foi até a geladeira e virou todo o conteúdo da jarra na boca, o liquido escorria pela camisa e pingava no chão formando desenhos líquidos esparsos como lágrimas que saltam de repente dos olhos e não sabem onde cair.
O tique-taque do relógio da parede ecoava por toda a casa como se estivesse vindo de um corredor muito comprido e deserto de assoalho tabuado em madeira escura e clara formando intermináveis zigue-zagues, como os corredores empoeirados dos museus ou das sacristias, onde quando era criança se deslumbrava com a cara dos santos.
Lembrou do cuco que vira num filme no cinema, e esperou que ele pulasse da superfície ovalada da sua tela mental e informasse as horas, mesmo que ele não tivesse perguntado.
Às vezes é preciso não saber, para que nosso mundo continue preservado, e não tire a cor da esperança que, por mais inútil que possa parecer e tentemos mata-la, ainda é a última que morre.
Qual a importância de saber as horas se ele não possuía a chave do tempo?
Para quê ter a chave do tempo se não se importava com as horas.
H – O – R – A – S ! Visualizou as horas… Que sentido teriam?
HO – RAS – silabou para si mesmo, o som bateu no relógio e retornou como um alegre bumerangue ao seu peito.
Porque este nome? HORAS? Se não fosse esse que nome seria? Talvez PRISÃO.
PRI – SÃO – silabou mais alto e desta vez não foi golpeado no peito e sim acariciado na nuca.
Prisão era mais objetivo, palpável, definitivo.
As horas aprisionam a vida com seus dedos finos percorrendo pé ante pé a superfície do relógio, nos aprisiona porque são elas que definem o rumo que damos a nos mesmos. Bem que poderia almoçar na madrugada e surfar a noite. Mas alguém já aprisionado pelos ponteiros, do alto da sua sabedoria disse que a noite era propriedade das corujas, com aqueles olhos muito grandes, lagos líquidos retidos naquelas retinas, elas olhavam sem ver; talvez elas tivessem sido as inventoras dos relógios, queria os homens aprisionados nas barras de ferro do sono ou na ilusão dos sonhos, para que elas pudessem desfilar a vontade desfiando seu rosário de lamentações emitindo seus gritos estridentes ao anunciar a morte dos nossos planos.
Ouvira alguém dizer que morrer é renascer para a vida eterna, então poderia se considerar imortal, pois a cada milésimo do milésimo de segundo morria e não sentia, pois a cada golpe que a vida ou nos dá sentimos que vamos morrer envenenados por nós mesmos, mas usamos as palavras como antídoto e a dor escondida como remédio.
O perigo maior não é viver e sim acreditar que possa existir vida inteligente num lugar regido pelo coração… Mas tudo não passa de uma grande mentira, vida poderia até ser uma estrada florida se não tivéssemos a pretensão de querermos usar o amor como adubo.
AMOR – Se prestasse não era vendido, se fosse verdadeiro teria que ser terceirizado, AMOR subterfúgio para não deixar um poema sem rima.
Antigamente, com que o amor rimava?
Dor – Ardor – Esplendor – Mulher Amada – Flor de Laranjeira -
E hoje, se globalizarmos o AMOR ele rimaria com o quê?
Decepção – Entrega – Contramão – Indigestão.
AMOR
Passagem comprada para uma viagem maravilhosa do tipo bate e volta, com direito a caixas de lenços de papel para que enxugues suas lágrimas, Vick Vaborub para desentupires o nariz e não enchas o ouvido dos amigos de catarro, chá preto para desinchar suas pálpebras – óculos escuros para não teres que explicar porque de repente você resolver transformar a sua vidinha mais ou menos numa super-produção patrocinada por um paixão desenfreada.
As pessoas se alimentam de explicações, é visceral tudo perguntar e a tudo responder, como se cada resposta influenciasse o no passeio que os astros fazem no signo de cada um… Nada… Deve ser conjuntivite.
E como seria a vida eterna?
A mãe falava sempre sobre um céu que só ela conseguia ver, ele contava nuvens de carneirinhos e as conduzia com mão longas para seus sonhos…
A primeira vez que passeou de avião, enquanto a irmã morria de medo, ele palmilhava com olhos sonolentos o céu e quando se viu inteiro no universo vasto de uma grande nuvem despertou a procura do buraco da fechadura por onde pudesse ver por dentro a vida eterna…
Passada a turbulência e com os pés salpicados do vômito da irmã trazia os olhos virgens de vida eterna e arregalados, logo adiante um céu listrado de azul com dedos brancos, montes, sofás, cadeiras, homens, mares tudo sob forma de nuvem, foi tomado pela alegria de um louco, batia palmas ensandecidos, quis se jogar para cair bem no meio delas… e batia com a cabeça, futuro depósito de chifres, no vidro.
O médico aplicou uma injeção.
Quando acordou e viu os olhos imaculadamente azuis da avó, lembrou que Gagarin havia dito de a Terra era azul, então tinha conseguido chegar a vida eterna…quase a velha fica caolha… Outra injeção, antes de dormir ainda ouviu a mãe dizer que toda a criança tinha cara de maluco.
A simetria da cebola mais uma vez o atraiu, ela estava caída no chão como uma mulher gorda, acéfala e sem pernas, olhava para ela rodopiando tentando se levantar, e a cada tentativa penetrando mais na escuridão do armário, isento de qualquer culpa, ele não era o inventor das meias cebolas, no mínimo o que conseguia inventar eram as palavras inteiras para se proteger das meias-verdades. Pegá-la seria se envolver, mas as meias cebolas eram criaturas pegajosas e ele poderia se distrair e se perder no meio daqueles círculos empoeirados. A caridade era a escada iluminada que nos conduziria à eternidade, ouvira o padre dizer, seria caridoso então.
Portanto Senhorita Meia Cebola dos Santos, venha que a colocarei sobre a pia, mas não me toque, cada macaco no seu galho e na pirâmide social somos diferentes, quem sabe o Sr. Alho de Oliveira esteja desimpedido? Ou D. Cenoura da Silva com aquele ar falsamente assexuado…. Ouviu falarem coisas sobre ela que nunca imaginou, naquela tarde que procurava um limão na gaveta da geladeira, o repolho e a couve… quase ele se mete na conversa…. a opção é de cada um, mesma que seja uma cenoura… Assim como são as pessoas são os legumes….
Pronto lá estava ela, bastava agora ele ir ao correio quem sabe alguém não mandara num envelope a chave dourada da eternidade?
Afinal, ele salvara uma senhorita do ataque noturno das formigas e das baratas, aqueles seres asquerosos que tem a pretensão de resistir às bomba atômica e entram voando pelas janelas e se instalam sem ser convidadas nas gavetas e riem de nós com aqueles dentes marrons e pontudos, mas são colhidas de surpresa e perdem a dignidade mostrando suas entranhas amareladas quando esmagadas por um simples chinelo.
Mas uma vez sentiu sede, o resto da água gelada como ondas apagando a fogueira da garganta;
Estava sozinho como sempre quis estar, todos haviam saído, até a empregada tinha ido ao baile, mas esquecera lá na cozinha o rastro do perfume que lembrava filme pornô exibido em cinema de quinta categoria.
Liberdade enfim.
Sempre achou esta palavra mal aplicada.
LI – BER – DA – DE – por ela se mata e se morre. Uma vez perguntou ao pai, num dos seus acessos de “porquês”, porque as pessoas se casavam, tinham filhos, compravam casas à prestação se falavam sempre que queriam ser livres?Ele virou a página do jornal como a dizer que ele estava tirando a sua liberdade de ler com aquela tentativa inútil de prendê-lo ao emaranhado de perguntas que só uma mente ociosa como a dele conseguia produzir;
A mãe foi mais cristalina.
Disse que não sabia, perguntou se não tinha nada pra estudar e gritou que desaparecesse da frente dela. Não que ela fosse uma mulher inculta apenas nunca havia se dado conta que ela era a mais livre de todos eles.Não sabia nada.
Descobriu então que não saber nada era o caminho, pois a medida em que se sabe cria-se uma prisão feita com as grades do conhecimento… A saída é esquecer o que sabia, e não querer saber de mais nada, tapar a entrada da mente com um grosso cobertor de lã, cerrar os olhos, os ouvidos, o nariz e principalmente a boca, inimiga perigosa. Buscar conhecimento se torna um vício e o cheiro do seu vicio ele escondia por trás da cortina de fumaça do pó de café.
Se o mundo tivesse descoberto o mal que o conhecimento iria causar, Einstein teria continuado sendo um péssimo aluno e daria continuidade a fabricação de aviões e bolinhas de papel, coisas que só os alguns alunos conseguem fazer bem.
Porisso decidiu ser livre esquecendo tudo o que já sabia.
Agora era a fome, uma bola de fogo subindo e descendo pelo estômago, leite, pão, queijo, tudo o que tivesse mesmo gelado…
Viu-se como aqueles meninos da Etiópia com suas pernas ósseas e as barrigas inchadas de vento mostrando o desenho fino das costelas, como pele de zebra, com seus panos imundos cobrindo o que lhes restava de dignidade, olhos baços enxergado em tudo e em todos um prato de comida. Mulheres com expressões de dor e raiva cujos olhos não mais conseguiam transmitir nenhum tipo de desejo e renegavam o próprio desejo representado por aqueles filhos que com suas bocas negras e olhos moribundos tiravam do seu peito todo o ar na esperança de que jorrasse leite… Mas de pedra nunca jorrou leite e delas o que podia jorrar era a desesperança, pois até a alegria de ver o sol tingir de vermelho as savanas elas já não tinham mais.
A fome lhe tirava toda a possibilidade de enxergar a poesia…
Realmente o mundo era uma grande fossa a céu aberto, e antes que passasse a fazer parte dela, iria subir para dormir.




As nossas políticas educacionais são ações, a princípio bem intencionadas, pois visam permitir o restabelecimento de uma educação plena.


